"Odeio nordestino" foi o que picharam no muro de uma pensão na região central de São Paulo. Mas o que era uma mensagem de ódio se transformou, no dia seguinte, em um grafite com uma imagem de um sertanejo no cenário da caatinga. E ninguém no bairro falou mais nisso.
A poetisa Francis Bezerra explica o episódio: "Há muitos grafiteiros em São Paulo que são filhos ou netos de nordestinos. O grafite é um dos nossos principais aliados contra a discriminação por origem", diz a fundadora e presidente da Anesp (Associação dos Nordestinos do Estado de São Paulo."
Fonte: G1
Nós, que somos nordestinos, estamos de braços abertos a todos que nos odeiam, inclusive os sudestinos. Venham conhecer o nordeste, nossa cultura e o povo daqui. Se depois disso, esse sentimento ainda existir, é porque, na verdade, meu caro, o problema é você!
por Estêvão dos Anjos * – O Ocidente cresceu sob a égide do fálico. Sob um mundo patriarcal. Mundo esse erguido após séculos e séculos de opressão, perseguição e morte do gênero feminino. Como a maioria dos crimes apresentam o seu mentor intelectual, podemos afirmar que, no caso do feminicídio, foi a igreja Católica.
Um dos principais mitos que compõem a Bíblia, o de Adão e Eva, pode ser considerado a origem do feminicídio. Antes, um parêntese: existe feminicídio e femicídio, o primeiro relacionado à sexualidade e o segundo a questões políticas. A culpa atribuída à Eva por ter comido do fruto proibido pode ser considerada política, afinal uma regra foi infringida, mas ela assumiu conotação sexual: não foi apenas Eva que passou a ser punida, mas todo o sexo feminino.
O feminicídio na Idade Média é o tema de estudo de Ela, personagem vivida de forma incrível pela atriz Charlotte Gainsbourg no mais novo e polêmico trabalho do diretor dinamarquês Lars von Trier: Anticristo (2009). Ela é casada com Ele (Willem Dafoe), e divide com ele a culpa de um acidente que poderia ter sido evitado: a morte de seu filho após cair da janela de casa. Cena essa mostrada numa das passagens mais belas do filme, mesmo sendo trágica e chocante – além da morte temos um close numa penetração sexual. A tomada possui um ritmo poético e que acompanha os passos da trilha executada.
Após o prólogo – é assim que Trier nomeia essa parte do filme – tudo parece cair num profundo pesadelo. Sentindo-se culpada, Ela passa um mês em estado de luto diferenciado, conforme os médicos classificam. Cansado do tratamento que é aplicado à sua esposa, Ele decide retirá-la do hospital e, como terapeuta que é, ele mesmo cuidar dela. Profundamente depressiva e sofredora, Ela inicia o tratamento que seu marido se propôs levar a cabo. A base desse tratamento é descobrir o que mais Ela teme e fazê-la enfrentar esse medo. O resultado é completamente diferente do esperado e uma série de acontecimentos estranhos acontecem, despertando em Ela um instinto assassino.
Esse seria o resumo do filme, caso não fosse uma obra de Lars von Trier. Recheando-o de símbolos e alegorias – uns bastante compreensíveis, outros nem tanto –, o diretor faz desse simples roteiro uma obra que vai de encontro a toda uma tradição cultural do ocidente.
O MITO REVISITADO
Conforme dito no início do texto, Adão e Eva foi o primeiro casal que habitou o planeta, segundo a tradição cristã. Para outros segmentos religiosos, o mito de Adão e Eva é apenas parte da verdadeira história, que teria sido moldada pela igreja Católica. Para a Cabala, segmento religioso-filosófico do judaísmo, Adão teria sido criado homem e mulher ao mesmo tempo e, na sequência, dividido. Assim teria surgido Lilith. Deus deu-a em casamento a Adão, mas ela não aceitou se submeter e fugiu do Paraíso, seguindo os passos do diabo.
Esse teria sido o princípio da divergência entre o homem e a mulher, entre o Ele e o Ela. O resto da história é bastante difundido: Deus jogou Adão em um profundo sono e retirou-lhe uma costela, criando Eva, sua futura esposa. Para alguns, a sociedade patriarcal inicia-se no ato da retirada da costela do homem para se fazer a mulher, ou seja, já existe um vínculo de dependência. Hoje Lilith é vista como um símbolo da não-submissão feminina. Segundo alguns escritos hebraicos e aramaicos, ela se incomodava, inclusive, de ser aquela que ficava por baixo nas relações sexuais.
Trier, em seu filme, resgata o mito de Lilith, evidenciado, de início, por meio dos nomes dos personagens. Ao optar por não nomeá-los, chamando-os apenas Ele e Ela, Trier deixa claro que o confronto gira em torno de uma disputa sexual. Em uma sinopse do filme divulgada antes do lançamento, dizia-se que o filme contava a história da criação do mundo pela ótica do Demônio. E é isso que acontece.
Após a perda do filho, Ela afirma que no último verão havia estado no Éden para estudar com mais tranquilidade o feminicídio para sua tese, porém algo estranho a fez perder a concentração e não concluir seus estudos. Esse “algo estranho” que Ela afirma ter sentido, foi uma espécie de insight provocado pelos seus estudos que a fez ver a verdadeira condição da mulher dentro da sociedade, só que essa percepção acontece em seu inconsciente. É por esse motivo que ao voltar ao local, dessa vez para o tratamento, Ela parece ser acometida de dupla personalidade, uma violenta e instintiva (Lilith), e outra insegura, medrosa (ela mesma).
Trabalhando com as imagens sugeridas, Lilith desperta em Ela, e retorna ao paraíso a fim de recontar a história humana como a vê: ela quer, dessa vez, submeter o homem ao julgo da mulher. A cena em que ataca o homem com uma madeira e faz sexo com ele é um exemplo dessa nova conduta que Ela quer impor, para isso basta ver que o ato sexual é feito com a mulher por cima do homem, simbolizando a dominação. Para colocá-lo ainda mais ciente do que é ser mulher na sociedade patriarcal, Ela prende à perna de seu esposo uma roda de concreto, uma referência ao peso da culpa que todas as mulheres carregam ao longo da história.
Porém, a personagem é, a partir do momento que chega ao Éden, um constante embate entre Lilith e Ela, a força de uma, contra a submissão da outra. Após Lilith fazer sexo com Ele, o lado inseguro da personagem reaparece e, dando-se conta do que havia feito, pune-se cortando o próprio clitóris.
A forte cena dessa ação remete, mais uma vez, ao feminicídio, hoje ainda praticado em alguns países africanos como parte de um ritual que consiste em retirar a parte sexual da mulher que mais lhe dá prazer, como uma forma de lembrar a todos qual o sexo culpado pelo “pecado original”.
É nesse contexto que surge a imagem do Anticristo. Pois, ao ir de encontro ao patriarcalismo, ao feminicídio e aos valores pregados em relação à mulher, Trier ataca, principalmente, a igreja Católica por ser a difusora desses valores e, consequentemente, Jesus Cristo, símbolo da instituição. Observando a obra por esse viés, podemos apontar tanto a personagem Ela como o Anticristo que o título menciona, como o próprio Trier.
O nome do filme é um tributo a Friedrich Nietzsche, um dos principais pensadores da filosofia mundial e responsável por construir uma linha de raciocínio que ataca toda a moral ocidental erguida pelo Cristianismo. Segundo o diretor afirmou em entrevista, o Anticristo do filósofo é seu livro de cabeceira. Mas um filme não se restringe apenas ao conteúdo, devemos levar em consideração também a sua forma.
RENÚNCIA AOS DOGMAS
Lars von Trier [ao lado] é conhecido por ser um dos criadores do movimento cinematográfico Dogma 95. Este movimento contrapõe-se ao cinema de Hollywood e se propõe a fazer algo mais realista. Com fortes influências do teatro de Bertolt Brecht, os integrantes do Dogma 95 lançaram cartilha na qual algumas das regras a serem seguidas são: a filmagem não pode ser feita em estúdio e deve capturar o som ambiente; não deve haver nenhuma iluminação especial; a câmera é usada em mãos; efeitos visuais estão proibidos; e são inaceitáveis filmes de gênero.
Apesar de ser o ícone dessa escola, Trier não a segue tão à risca em Anticristo. Alguns dos critérios foram seguidos (como a câmera na mão e as tomadas externas), mas isso não faz dele um filme pertencente à estética do Dogma 95, pois algumas regras são burladas (uso de efeitos visuais, simulação de realidade, preto e branco, trilha sonora).
Essa quebra de preceitos cinematográficos que o diretor vinha pregando em seus trabalhos anteriores pode ser interpretada como um novo caminho que sua vontade de se expressar resolveu trilhar. Em algumas entrevistas, Trier afirmou que escreveu e dirigiu o filme em forte estado depressivo; logo, ele teria surgido mais como uma vontade de externar fantasmas do que seguir certa tendência cinematográfica.
O mais curioso nisso tudo é que a renúncia ao Dogma veio justamente em um filme em que o diretor ataca uma instituição que se mantém por meio de dogmas, ou seja, a escolha por essa forma se complementa com o conteúdo perfeitamente: tanto um quanto outro descarta a ideia de dogma. Porém, até que ponto isso tudo foi consciente, talvez, continue um mistério.
Durante anos, as alegorias apresentadas ao longo do filme deverão ser motivo de discussão. A queda do bebê representa a queda da inocência? O que representa o filhote de veado natimorto? A raposa que come suas próprias entranhas? O defeito no calcanhar da criança? São muitas dúvidas, questionamentos que precisam ser melhor pesquisados para que se chegue a uma compreensão. Nesse sentido, Trier se assemelha, mais uma vez, a Nietzsche, quando esse pôs no prólogo de sua obra que alguns homens nascem póstumos, pois só serão compreendidos futuramente, por estarem à frente de seu tempo. Talvez a citação viesse a calhar como uma epígrafe da obra de Lars von Trier.
Hora de romper o silêncio deste blog e tocar numa questão que nos atinge a todos que somos, de certa forma, produtores de conteúdo na Internet e veículos com algum, mesmo que pequeno, alcance.
Não vou tocar na questão da liberdade de expressão enquanto direito constitucional porque, neste caso, realmente, não se aplica. Não foi uma afronta à liberdade de expressão, uma vez que não se atacou a opinião de um produtor de conteúdo. Parece-me mais uma tentativa de lucrar judicialmente se aproveitando do desconhecimento do meio jurídico em relação à Internet. Sob o pretexto de se corrigir o dano de uma suposta ofensa, provoca-se a censura e depois se cobra danos.
Em um país de história democrática tão recente, o comportamento censor ainda não teve tempo de se afastar da cultura jurídica. Agora, em vez da censura de Estado, há a censura dos detentores do poder econômico. É muito fácil a uma grande organização se aproveitar de expedientes jurídicos e precedentes ilógicos para punir alguém que sequer tem no seu veículo uma fonte de renda. Mais ainda, punir alguém por algo que ele não escreveu.
Aos fatos: Emílio Moreno é conhecido pela blogosfera cearense por seu faro jornalístico e pelas informações em primeira mão que dá em seu blog, o Liberdade Digital, nosso vizinho aqui neste condomínio blogueiro, e no seu perfil do Twitter, @emiliomoreno. Para o resto do Brasil, Moreno é conhecido também como o idealizador da ação Buracos de Fortaleza, uma iniciativa colaborativa de mapeamento dos buracos nas ruas fortalezenses que foi pauta em portais Brasil afora e chamou a atenção do poder público, motivando uma ação de reparo da malha asfáltica da capital.
O absurdo: Emílio Moreno está sendo processado em cerca de R$ 20 mil pela diretora do Colégio Santa Cecília, por conta de um comentário anônimo em seu blog.
Isso mesmo que você leu: o blogueiro está sendo processado por conta de um comentário escrito por outra pessoa, a respeito da diretora do colégio do colégio em questão. A favor dele ainda pesa o fato de que, ao ser informado por representantes da diretora pelo colégio, o mesmo apagou imediatamente o comentário e abriu espaço para que a instituição mesma apresentasse sua resposta. Ainda assim, a diretora do colégio exige reparação por danos morais. Mesmo que seja possível, na Internet, rastrear a origem do comentário e chegar ao autor original.
Imagine a seguinte cena:
Certo dia, aparece uma pichação no muro de sua casa criticando determinado estabelecimento comercial. No mesmo dia, advogados do estabelecimento chegam até você e pedem que você repinte o muro, apagando a pichação. Você o faz, prontamente, mesmo não sendo sua obrigação. Dias depois, advogados do grande estabelecimento chegam até você com um processo por difamação e danos morais contra VOCÊ, mesmo que você não tenha sido o autor e mesmo que seja capaz, com pouca investigação, chegar ao vândalo que registrou ali a crítica.
O que eu quero mostrar aqui é que este processo, além de absurdo e ilógico, põe em risco o próprio comportamento livre e democrático da Internet, onde nós, produtores de conteúdo, estamos livres de amarras editoriais e temos possibilidade de expôr nossas convicções e opiniões. Põe em cheque xeque direitos constitucionais e ameaça a livre expressão. Não defendo a calúnia nem a difamação, mas sou radicalmente contra se punir o dono do muro por conta da pichação do terceiro.
O que podemos fazer?
Se você é advogado e é contra este tipo de absurdo e a favor da coerência, entre em contato com o Emílio Moreno através do blog ou do twitter. Você pode ajudar com uma assessoria jurídica ou algo que concerna às suas atividades profissionais.
Se você é blogueiro ou tuiteiro, ajude a espalhar este absurdo. Mobilize-se de alguma forma, seja através de um post, de um tweet, de uma imagem, de uma ação. Faça com que mais pessoas conheçam esta situação. Mas sejamos responsáveis. Se vamos falar sobre o caso, nos foquemos nesta questão particular, sem ofensas ao autor do processo.
Se você é, de alguma forma, ligado ao colégio em questão, faça sua administração perceber que esta atitude está errada desde a concepção e baseada em uma justificativa jurídica ilógica. Que o mais racional seria punir o autor do comentário e não o blog que, de forma alguma, tem interesses comerciais ou difamatórios.
Se calarmos agora, não vamos poder reclamar depois.
ATUALIZAÇÃO NECESSÁRIA (24/11/2009):
Inicialmente, agradecer a todos que ajudaram a divulgar o absurdo deste processo no Twitter, blogs e em outras redes sociais. A notícia, segundo informações do Tweetreach chegou a mais de 60 mil pessoas, após os retweets, e reverteu em mais de 3,5 mil acessos individuais a este blog apenas através do link original, do bit.ly. Também, entre meio-dia e duas da tarde, foi uma das 5 mensagens em português mais retuitadas no Twitter. Hoje, pela manhã, a matéria está na capa do G1. Isso tudo graças a vocês, leitores, numa prova de que temos, sim, poder para fazer conhecer um absurdo como este. Numa prova de que podemos nos mobilizar e usar as redes sociais para apoiar uma causa. Parabéns e obrigado a todos vocês.
Por fim, algumas considerações e erratas: Apesar do post referir-se a um comentário de um anônimo em um post sobre o colégio, quem processa o blogueiro não é a instituição, mas, sim, a diretora da mesma. A pessoa física e não a jurídica. Segundo o G1, o valor correto da penhora é de R$ 16 mil.
Dois corpos arqueados emergem - um do solo, outro da água - em direcção ao céu, unindo-se no topo e fundindo-se num monumental edifício único de formas arrojadas, semelhante a um tubo de aço perfurado e dobrado por uma força imensa. O seu perfil sugere o caracter do alfabeto chinês que significa "pessoas". Assim será o Edifício do Povo na Expo 2010, em Shanghai, na China.
O Edifício do Povo (nome de código: REN) é um projecto de um colectivo de arquitectos e designers dinamarquês intitulado BIG (Bjarke Ingels Group). A forma peculiar deste edifício não é gratuita e comporta, na perspectiva da filosofia oriental, um simbolismo que vai para além da semelhança com o sinal caligráfico com o qual se identifica. Assim, o corpo que emerge da água é dedicado a actividades de cultura física, desportos, etc.; já o corpo emergente da terra tem como destino actividades de "enriquecimento espiritual" - centro de conferências e outras. No ponto de encontro, onde o edifício se torna um só, situa-se um hotel de 1000 quartos! 250 000m2 de área construída...
Graciliano Ramos (1892-1953), grande escritor brasileiro, nasceu em Quebrângulo (AL), em 27 de outubro de 1892. Estudou em Maceió e, em 1910 sua família estabeleceu-se na pequena cidade de Palmeira dos Índios, interior Alagoano, onde seu pai dedicava-se ao comércio. Seu primeiro livro foi publicado em 1933, “Caetés”. Em 1934, “São Bernardo”. “Angústia” em 1936. “Vidas secas” 1938, dentre outras obras.
Foi preso em 1936, acusado, segundo fontes, injustamente pela participação no levante comunista de 1935, na época do Estado Novo, governo de Getúlio Vargas. Permaneceu na prisão até 1937. Este período, Ramos eternizou em sua obra “memórias do cárcere”. As informações acima são conhecidas do público, também suas obras. O que muitos desconhecem, é que, Graciliano Ramos esteve à frente da prefeitura de Palmeira dos Índios entre janeiro de 1928 a abril de 1930, quando renunciou ao mandato.
Segundo Marcus Lopes – que assina a matéria da revista Gestor, publicada pela editora Nova Griffon –, Graciliano teria renunciado por ser um homem muito íntegro e, que gostava de cumprir suas promessas.
Com efeito, uma receita inexpressiva para executar todos os planos que fizera para a pequena cidade de Palmeira dos Índios, a grande crise de 1929 que abalou a economia sertaneja, inclusive atingindo o comércio de seu pai, levaram-no à renúncia.
Contudo, durante a gestão de Graciliano, através de uma leitura dos relatórios detalhados redigidos pelo nobre escritor e enviados ao governador Alvaro Paes, nota-se singular transparência nos atos do prefeito, transparência jamais igualada pelos políticos brasileiros.
Devido às suas convicções, Graciliano indispôs-se com vários políticos e fazendeiros, inclusive seus correligionários; o vice de Graciliano, José Alcides Morais, por exemplo, renunciara no início do mandato.
De acordo com Marcus Lopes, nota-se peculiar habilidade vernácula em seus relatórios. Além de sua habilidade com as palavras, seus relatórios revelam sua nobreza de caráter e comprometimento com o bem comum.
Marcus Lopes descreve o caso do cemitério: “(...) No cemitério enterrei 189$000 – pagamento ao coveiro e conservação (...) Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalho a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiram a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamam(LOPES apud RAMOS. 2009, p. 28).
Adiante: “A prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.(LOPES apud Ramos. 2009, p. 28-30).
Durante o seu mandato, Graciliano construiu três escolas municipais, aumentou o salário dos professores e o turno dos alunos nas aulas. Cuidou da limpeza pública, fez um novo matadouro, criou o primeiro serviço de higiene pública no interior do Estado. Construiu uma nova estrada ligando Palmeira dos Índios ao distrito de caçambinha e, ainda, implementou um novo código de posturas municipal.(LOPES. 2009, p30).
O código de posturas implementado por Graciliano rendeu-lhe algumas divergências. A primeira delas com seu pai; uma das medidas do novo código proibia animais soltos nas ruas, porém, certo dia um dos fiscais municipais alegou ao prefeito que não recolhera alguns animais porque estes pertenciam “ao coronel Sebastião” pai de Graciliano. O fiscal foi advertido que se agisse assim, da próxima vez, seria demitido. “Prefeito não tem pai. Eu posso pagar sua multa, mas vou ter de apreender seus animais toda vez que o senhor deixá-los na rua”, argumento ao seu pai.(LOPES apud RAMOS. 2009: p.30).
Outro embate foi com o sr. Capitulino Vasconcelos vereador e comerciante de gado. O vereador reclamava do imposto para o corte da carne no açougue aos produtos alegando que tal lei não existia. Graciliano, então, retrucou: “A lei existe e você assinou (...) não tenho culpa de você ser burro e assinar papel sem ler, Capitulino. Não pleiteei prefeitura e não vou fazer favores (...) pague o imposto antes que tenha de pagar multa”. (LOPES. 2009, p. 30-31).
Em consequencia de seus atos, além da compreensão dos munícipes que viviam sob o jugo de políticas tendenciosas comumente compreendidas como Coronelismo, houve, naquela época, pequeno levante em oposição à administração. Graciliano estava ciente de seus atos e escreveu: “Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há descontentamento. Se a minha estada na prefeitura por estes dois anos [1928 e 1929] dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos”. (LOPES apud RAMOS. 2009, p. 32).
Persistente, seguiu adiante, porém a crise mundial de 1929 e as dificuldades para realizar os seus planos na prefeitura fê-lo renunciar.
Graciliano, certamente não será lembrado pelos seus anos à frente da prefeitura de Palmeira dos Índios. Sua honestidade e comprometimento puseram-lhe à prova. No entanto, escrevemos o presente texto em homenagem a esses atos valorosos de um homem que realmente soube ser um político, oferecendo-nos seu exemplo. Pena que seus companheiros, durante a nossa história, jamais concordaram com tal conduta, pois, não lhes entra na cabeça.
Joandre Oliveira Melo. __________________ Refrências bibliográficas: LOPES, Marcus. Graciliano Ramos, O GESTOR. In.: GESTOR – Revista do administrador público. São Paulo: Nova Griffon, 2009. (PP.28-34). (*) foto acesso em: http://www.releituras.com/graciramos_bio.asp 23/11/2009 22:12.
Ainda hoje os 120 quilômetros de Hadrianswall - a Muralha de Adriano -, cortam a Grã-Bretanha. Durante 300 anos, suas pedras marcaram as fronteiras setentrionais do Império Romano - um baluarte contra guerreiros da Escócia
GERMÂNIA: O QUE ACONTECEU JUNTO ÀS TROPAS DA FRONTEIRA NO LIMES
Em noites assim, Primius Auso sabe, é preciso prestar atenção redobrada. A estreita foice da Lua aparece apenas de vez em quando atrás das nuvens baixas, e a chuva batendo nas tabuinhas do telhado cobre qualquer outro ruído. Em companhia de seu camarada, o sargento do exército romano está na galeria de sua torre de vigia; diante dele se erguem as cumeadas do Taunus, uma cadeia montanhosa no território onde hoje é a Alemanha.
Primius Auso apura os ouvidos na escuridão. Busca ouvir algum som para além da civilização, algo que venha da terra dos bárbaros.
Ele sabe que não está sozinho. No limiar do Império, a capacidade de percepção dos romanos é altamente desenvolvida. Apenas em sua fronteira terrestre germânica, os romanos erigiram, no século 2 depois de Cristo, um cordão de castra (fortificações para acampamentos militares) com 550 quilômetros de comprimento - em alguns lugares, totalmente reta -, guardado por 30 mil soldados. Entre as localidades de Rheinbrohl, no Reno, e Eining, no Danúbio, há mais de 900 torres de vigia de madeira e pedras, sempre em distâncias visíveis, sempre construídas do mesmo modo.
No térreo da torre, inacessível a quem está do lado de fora, encontram-se armazenados, em ânforas de argila, trigo e azeite. No segundo andar, cuja porta só se alcança por uma escada de mão, está o alojamento da guarnição, de quatro ou cinco homens. Eles têm que manter a posição por um verão inteiro, ou ao longo de um inverno. Em um chiqueiro ao lado grunhem porcos; e pegado a ele há fornos. Em caso de perigo, Primius Auso e seus camaradas podem levantar a escada e se refugiar na plataforma mais alta da torre, de dez metros de altura. É ali que fica o posto de vigia, dotado de armas, tochas, cornetas. Em frente à torre corre uma paliçada feita de troncos de carvalho cortados pela metade: a proteção mais externa do Império.
Nesse dia ela amanhece ferida.
Primius Auso constata quando o dia amanhece: sob a escuridão da noite chuvosa, os bárbaros arrancaram pranchões que estavam presos às paliçadas. As tribos da parte norte e desocupada da Germânia sabem perfeitamente que há bastante para saquear ao sul da fronteira. Apenas uns quilômetros depois das torres de vigia estão as primeiras fazendas romanas dos decumates agri - os campos decumanos conquistados.
Nove mil soldados vigiavam a muralha de 4,5 metros de altura, entre romanos e escoceses. Os legionários, porém, não tinham muito medo do inimigo: eles zombavam dos bárbaros além do Limes, chamando-os de brittunculi ou pequenos britânicos
Colonizadores recém-chegados da Gália e de outras regiões do Império, reconstruíram os antigos vilarejos germânicos que haviam sido incendiados, após um século de guerras. Imigrantes e colonos forçados a se assentar reavivaram as terras, e agora cultivam novamente os campos pisoteados. Na proteção da Pax Romana garantida por Roma nas províncias, a planície de Wetterau floresceu de novo. Os camponeses fornecem carne e verduras às legiões junto ao Reno e às tropas que guarnecem as fortificações estabelecidas junto ao Limes. São elas que protegem essa mais nova ramificação da civilização em direção ao Norte - e também elas devem caçar intrusos.
Primius Auso dá o alarme com a corneta. A mensagem é passada de torre para torre, até alcançar o acampamento militar mais próximo: um castum (fortificação), cujo nome romano ninguém mais sabe - e que hoje é conhecido como "Saalburg".
Lá está estacionada uma coorte (subdivisão da legião romana) com 600 soldados. Seu comandante, Lucius Sextius Victor, não deve ter hesitado em colocar uns 30 homens de sua cavalaria no encalço dos possíveis invasores.
Enquanto Auso conserta a paliçada com os seus camaradas, Victor transmite o alerta aos redutos fortificados mais próximos: um na atual Butzbach, onde permanece de serviço uma divisão de cavaleiros de Cyrenaica (atual Líbia), e outra em Friedberg, acampamento de 500 arqueiros montados, vindos de Damasco. Os germânicos provenientes do Barbaricum não ocupado devem ser capturados. Eles não podem duvidar da capacidade defensiva de Roma; não podem interpretar que a potência mundial, depois de ter perdido três legiões completas na batalha de Varus - no ano 9 d. C. -, vá se contentar apenas com o Sul e o Oeste da terra habitada pelas tribos germânicas.
Mesmo que os soldados não consigam localizar os saqueadores ainda nesse dia, eles serão capturados quando tentarem cruzar a fronteira na volta, carregando a pilhagem. E talvez, então, soldados romanos atravessem a muralha para exercitar uma desforra nas aldeias desses intrusos - que danificaram a "paz romana" junto à torre sob a responsabilidade de Primius Auso e, com isso, a maior obra arquitetônica da Europa.
Trata-se, nesse caso, de um dos sistemas de controle de fronteiras mais dispendioso do mundo. Os romanos o montaram para separar - de forma bem visível a todos - a sua civilização do atraso dos vizinhos ao norte. Desde a Escócia até o Mar Negro se estendem muralhas e fossos, muros e as fortificações do Limes. Monumento, a um só tempo, do poder e do medo. O poderio da Antiguidade se dilatou demais. Com muita dificuldade, ele consegue ainda administrar seu imenso império. Para avançar mais ainda, falta-lhe força. Roma, então, se entrincheirou.
Na verdade, há muito que historiadores e arqueólogos deixaram de considerar o Limes uma instalação de defesa fixa, de eficácia comparável à Muralha da China ou à Linha Maginot francesa, erguida no século 20. Ele funciona mais como uma simples membrana estendida entre dois mundos, a fim de proporcionar um contraste bem dosado: aqui ordem, disciplina e estradas pavimentadas; lá, trilhas tortuosas pela mata e costumes arcaicos. No meio de ambos: uma fronteira policial e econômica. Uma zona de controle, de intimação - mas que, simultaneamente, provoca a inveja e admiração dos germânicos pelos estrangeiros cultos. E o contato fronteiriço entre essas duas culturas, que não poderiam ser mais estranhas entre si - embora nada as separe além de uma trincheira e um muro.
Desde que o Limes foi fortificado, sob os imperadores Adriano (117-138 d.C.) e Antonio Pio (138 - 161 d. C.), surgiu ao sul da muralha fronteiriça um espaço de próspera atividade econômica. Investidores extraem chumbo, prata, ferro e sal. Cidades são fundadas, ruas pavimentadas. Com os romanos chegam para a Alemanha do sul as construções em pedra e o torno de oleiro, a água encanada e rede de esgotos, os artesãos que trabalham com metais - e uma forma totalmente nova de vida social. Uma rotina que se desenrola em tavernas, teatros, termas e nos locais de reunião franqueados a todos os cidadãos: os fóruns das cidades.
São cultivados tipos de cereais mais rentáveis, introduzidas raças de gado e cavalo maiores. A viticultura se estende pelas regiões do Reno, Mosel e Neckar. Todos os tipos de frutos que conhecemos hoje, como cerejas ou peras, são colhidos; e da mesma forma o aspargo, o salsão e a acelga, os castanheiros e nogueiras. Até o final do domínio dos romanos, o número de plantas comestíveis no sul da Germânia irá se duplicar.
Intransponível o Limes não era, pois em muitos lugares apenas valetas, fossos e paliçadas protegiam o Imperium. Em postos de fronteira (aqui uma reconstrução) comerciantes pagavam uma taxa alfandegária para passar com o gado
Que os soldados consideram o esforço exagerado pode-se deduzir do fato de eles - mal o imperador regressa a Roma - reduzirem a espessura do muro de três para dois metros. Mesmo assim, transcorrem seis anos até que a "muralha de Adriano" possa ser considerada pronta. A cada milha romana (cerca de 1,5 km) abre-se na muralha um portão. Atrás dele se encontra uma minúscula fortificação (chamad, em inglês, de milecastle), com 60 metros quadrados de área, que controla um acesso por terra para a província.
Assim o imperador ordenou, e assim acontece. Os destacamentos de construção não levam em consideração caminhos já existentes ou as condições topográficas. O esquema "a cada milha um portão" é mantido mesmo em lugares onde não faz sentido - como, por exemplo, na borda dos penhascos de basalto de Cawfields. Em um único caso os romanos deixaram de fazer o portão, ainda que não a praça fortificada. O portão abriria para uma escarpa vertical de 10 metros.
A Muralha não deve impedir o comércio com os povos das Terras Altas. Oitenta passagens ao longo de 120 quilômetros permitem a troca de mercadorias, controlada por guardas e publicanos alojados em 158 torres de observação. No total, 9 mil soldados devem ser destacados para o serviço na fronteira - bem poucos para defender a muralha em caso de necessidade.
Que os romanos se sentiam bem seguros é mostrado pelos encanamentos de água instalados ao norte da Muralha de Adriano, em área "inimiga", com a função de abastecer os acampamentos mais ao sul. Os romanos estão seguros de si: por que os nativos, jocosamente chamados de brittunculi (pequenos britânicos) iriam descartar a generosa oferta de coexistência pacífica com a maior potência da Antiguidade?
Achados espetaculares ocorridos na fortificação de Vindolanda (hoje Chesterholm), em 1973, revelaram detalhes da vida dos soldados. Nesse lugar foram encontradas mais de mil tabuinhas com inscrições a tinta - usadas no lugar do papiro, caro demais. As tais tabuinhas continham cartas cotidianas, ordens, relatórios. Tudo redigido em um latim parcialmente simplificado, com o qual se comunicavam as tropas lá estacionadas, compostas de batavos germânicos (vindos dos Países Baixos), panônios (originários da Hungria) ou celtas romanizados da Récia (no sul da Alemanha).
Um de seus comandantes se chama Flavius Cerialis. Suas atividades diárias quase não diferem do serviço em guarnições de exércitos modernos.
A 200 metros do Limes erguia-se no Taunus, uma cadeia de montanhas alemãs, a fortificação de Saalburg. No vicus à sua volta residiam os artesãos e as famílias de soldados; viajantes descansavam na pousada e nas termas (à frente, esquerda)
Reconstruções fiéis aos detalhes comprovam: no Reno e no Danúbio, contrabandistas não tinham chance contra os patrulheiros romanos
Um soldado de nome Messicus pede transferência para a cidade maior mais próxima; um oficial intervém a favor da promoção de um camarada, e o decurio (sargento) de uma divisão da cavalaria informa a necessidade urgente de fornecimento de cerveja. As senhoras dos oficiais enviam convites mútuos de aniversário. Recém-chegados perguntam pelos melhores bares; e alguém agradece o recebimento de um pacote com meias quentes e ceroulas, que o ajudarão a suportar o clima da fria Bretanha.
Todo o resto se obtém na vila do acampamento. Graças ao alto poder aquisitivo dos soldados, integrantes de um grupo profissional dos mais bem pagos do Império Romano, em torno de cada fortificação logo se desenvolve uma vicus - como é chamada uma colônia. E esse povoamento tem Todo o resto se obtém na vila do acampamento. Graças ao alto poder aquisitivo dos soldados, integrantes de um grupo profissional dos mais bem pagos do Império Romano, em torno de cada fortificação logo se desenvolve uma vicus - como é chamada uma colônia. E esse povoamento tem tudo o que alegra soldados longe de casa: adivinhos e sacerdotes para conduzir sacrifícios, ferreiros e comerciantes, dançarinas e prostitutas. Há restaurantes, casas de jogo, oficinas. No anfiteatro da guarnição se apresentam gladiadores. Um oásis do luxo que existe por trás da muralha de pedra, que durou quase 300 anos na Bretanha.
Uma única vez, tribos das Terras Altas penetram pela Muralha de Adriano, invadindo o Império. O ataque, aparentemente muito bem planejado, ocorreu no ano 180.
Não sabemos por que não foi dado nenhum alarme. Talvez os guerreiros britânicos tenham cruzado a fronteira disfarçados como simples visitantes. Eles teriam avançado em seguida, de forma inesperada - e a partir do sul -, sobre duas fortificações guarnecidas por 500 homens cada uma. O alvo dos atacantes era um depósito de mantimentos a seis quilômetros de distância da muralha, que saquearam. Somente após a convocação de duas legiões, que apareceram vindas de York e de Chester, os homens da Terra Alta foram repelidos, para além da Muralha de Adriano.
Ao que tudo indica, o governador romano Pompeius Falco suspeitava da vulnerabilidade que as passagens da muralha - nos milecastles - representavam. Ele mandou reduzir o tamanho desses acessos, de modo a ser possível apenas a passagem de transeuntes. E com isso demonstrou que não pretendia desistir totalmente dos visitantes vindos do Barbaricum.
Em Carnuntum - atual município de Petronell, na chamada Baixa Áustria -, o controle de fronteira é mais simples. Os procedentes do Barbaricum que desejam alcançar a metrópole romana tem, primeiro, que atravessar, diante da cidade, o Danúbio - o "Limes molhado", que no século 2º depois de Cristo formava por 2.400 quilômetros a fronteira do Império Romano, desde Kelheim, na Baviera, até o Mar Negro.
Entre Kelheim e o delta, no Mar Negro, os romanos aproveitaram o Danúbio como fronteira natural. O curso do rio também serviu como rota comercial: em suas margens floresceram cidades como Viena, Budapeste e Belgrado
Na vida de um germânico, já a simples travessia para Carnutum deve ter sido um apogeu: 50 mil pessoas se aglomeram aqui - ao passo que a uma pedrada de distância, na margem norte, lugarejo algum conta com mais de poucas centenas de habitantes.
As condições para a Pax Romana são ideais na região: o rio todo, inclusive seus afluentes, é dominado pelos navios do Imperium. A partir dos acampamentos das legiões de Vindobona (Viena), Brigetio (Komorn), Aquincum (Budapest) e Singidunum (Belgrado) se desenvolvem cidades florescentes. Mas nenhuma delas é tão magnífica quanto Carnuntum.
Em sua guarnição estão estacionados 10 mil soldados, e o porto é o quartel general da frota romana do Danúbio. Aqui também se cruzam a rota comercial para Aquileia, no Mar Adriático, e a estrada leste-oeste, que vai de Augsburg a Budapeste. Mas nada é tão importante quanto o fato de a cidade se incluir no traçado da chamada "Estrada do Âmbar", que leva do Mar Báltico ao Mediterrâneo.
Âmbar. Para as altas camadas sociais romanas, esse material misterioso e transparente é o ápice do luxo. Os romanos sabem que ele se forma do "suco das árvores". Mas acreditam que a resina desse arvoredo, existente em ilhas distantes no Mar ao Norte, pinga diretamente sobre o oceano, sofrendo um processo de mutação. O material milagroso e exótico é aproveitado em joias, adereços de cabelo e amuletos. Também é tido como remédio excelente contra doenças de garganta, das orelhas e dos olhos. Um pequeno retrato cinzelado em âmbar, relata o escritor Plinius, tem o mesmo valor de um escravo. O estudioso conta sobre um nobre romano que, a serviço do imperador Nero, cavalgou 900 quilômetros entre o Danúbio e o Mar Báltico, para reunir quantidades imensas de âmbar. Uma das peças que ele levou para Roma pesava quatro quilos.
Não é de se admirar, portanto, que Carnuntum se transforme em uma das vitrines mais ostentosas da civilização romana. O que será que um bárbaro sente chegando à metrópole, diante desse esplendor que ele nunca imaginou fosse possível existir? Nas ruas pavimentadas, seguem-se as carroças; sob as arcadas se enfileiram locais que servem refeições ao lado de lojas. Pousadas e termas atraem os visitantes. No "Pfaffenberg" erguem-se os templos dos romanos - construções grandiosas com pórticos altos e colunas de mármore. Dos altares sopram nuvens adocicadas de incenso ou o cáustico cheiro queimado de uma ovelha sacrificada. E tudo brilha colorido, em tons ofuscantes de verde, vermelho e azul. Todas as estátuas estão pintadas; inúmeras obras de imperadores e cônsules mergulhadas, de cima abaixo, em tinta.
Talvez o visitante traga uma recomendação, tenha sido convidado para a cena (ceia) ou para um symposium (festim) na casa de um rico mercador. Nesse caso, ele entraria em uma das vilas da cidade, perfeitamente comparável às famosas de Pompeia: as paredes enfeitadas de afrescos, os aposentos agradavelmente aquecidos com calefação sob os pisos, e à noite iluminados por lâmpadas a óleo.
Com os outros convidados, ele toma lugar em um canapé, sendo o número dos participantes do evento nunca inferior ao número das Graças (três) ou superior ao das Musas (nove).O banquete oferece os prazeres da cozinha romana: carne e pescado são regados com garum, um molho feito de cavalas fermentadas e outros peixes, servido com pãezinhos recheados de uvas passas. O vinho só é colocado na mesa após a refeição; determinar sua mistura, geralmente uma parte de vinho para duas de água, é tarefa do anfitrião. No dia seguinte, talvez, uma apresentação de luta em cenário grandioso: o anfiteatro de Carnuntum, que comporta quase 15 mil espectadores. Ou então uma visita ao circus, o circuito para as corridas de bigas, cercado por tribunas de madeira..
O historiador Tácito descreveu o efeito que uma cidade pode ter sobre "pessoas não civilizadas com tendência beligerante": assim que o bárbaro se rendia a seus "vícios tentadores, salões de colunas, banhos e ceias seletas", nunca mais queria desistir disso e se tornava pacífico - desde que pudesse ficar.
Mas, na maioria das vezes, não lhe era permitido ficar. Do ponto de vista dos cidadãos romanos de Carnuntum, o lugar legítimo do bárbaro era além do Danúbio.
Uma fronteira no sentido do direito das gentes, passando exatamente no meio do rio, como no nosso tempo - isso o Danúbio nunca foi para os romanos. Por outro lado, considerar as tribos do Norte como parceiras políticas e detentoras de direitos iguais, nunca passaria pela cabeça de qualquer imperador ou general romano.
Em Hainburg, na parte em que o Danúbio corta a Áustria, historiadores avaliam achados de Carnuntum, desde encanamentos até o sistema de aquecimento do piso
O Danúbio só é fronteira para os outros. A partir de sua margem sul reinam a lei e a ordem romanas, e quem quiser permanecer lá por algum tempo - visitar os mercados e negociar neles -, deverá ter algo bem interessante a oferecer, ou possuir boas relações com os funcionários locais.
Em Carnuntum, a civilização romana não se mostra apenas tentadora, mas também defensiva e superior. Se os germânicos abrem mão de se tornar parte do Imperium, a culpa é só deles. "O destino", enuncia Plínio, o Velho, "só poupou esses povos do domínio romano para castigá-los". Por outro lado, constantemente tropas romanas se movimentam com total naturalidade ao norte do Danúbio. Elas penetram centenas de quilômetros nas regiões que os germânicos herdaram de seus antepassados, e se entregam a combates com líderes locais - como atesta um campo de batalha recentemente descoberto na Alemanha do norte.
Mas os pesquisadores continuam sabendo ainda pouco sobre o fim dessa época da Pax Romana na Germânia, quando os bárbaros e o Império coexistiam em dois lados de uma fronteira. Parece que tudo começou no norte da Germânia, longe do Limes. Em consequência de grandes reviravoltas, surgiram novos povos e poderosas alianças militares. A suposição é de que, reforçando-se, os germânicos não mais aceitavam passar sua vida como parentes pobres, no quintal do mundo romano tão convidativo - excluídos por paliçada, muralha e rio.
Visto o cenário dessa forma, as suntuosas "vitrines" do Imperium exerceriam sobre os germânicos o mesmo efeito que os programas de televisão europeus exercem sobre africanos com vontade de emigrar: o fascínio pela terra prometida além da fronteira - de cujas bênçãos não se quer mais prescindir.
Mas existem também métodos mais elegantes de se manter os bárbaros à distância. Uma rede de espiões, postos comerciais e tribos amigas fornecem aos romanos informações acerca do Barbaricum: quais são os príncipes tribais mais poderosos, e que o melhor seria mantê-los bem-humorados com presentes apropriados. Chefes que cooperam recebem muitas vezes casas inteiras em estilo mediterrâneo, erigidas por artesãos romanos em aldeias germânicas. Devem fazer parte dos utensílios domésticos de um grande chefe: talheres de prata, jarras de vinho, taças de bronze e vidro romano - peças ostentadas com orgulho, e que se manda enterrar junto com os defuntos, no interior do túmulo principesco, para que os acompanhem na eternidade.
No século 4 d. C. o imperador Constantino II mandou construir um pórtico monumental e impressionou visitantes de Carnuntum. Hoje a ruína é conhecida como "Portal dos Pagãos" - ; uma saga medieval a considerava o túmulo de um gigante pagão
E foi assim que, em 166 depois de Cristo, teve início em Carnuntum o princípio do fim do Império Romano. Nesse ano apresentaram-se no palácio do governador emissários de dez tribos germânicas, queixando-se de suas dificuldades. O inverno estava ficando cada vez mais frio, e as colheitas eram cada vez piores; além disso, outras tribos vindas do norte invadiam suas terras. Somente entre os romanos haveria ainda esperança, alimento suficiente, meios de subsistência seguros. Eles solicitaram ao imperador que lhes concedesse acolhida no Imperium.
CRONOLOGIA DO LIMES
55-9 a.C. - Júlio César avança até o Reno. Druso comanda campanhas até o Rio Elba.
A partir de 8 a.C. - Germânia torna-se província romana; sua capital é a, posterior, cidade de Colônia.
9 d.C. - Armínio (Hermann, o Querusco) bate os romanos na Batalha de Varus.
14-16 d.C. - Os romanos se retiram temporariamente das regiões a leste do Reno, e o rio se torna uma fronteira.
43-85 d.C. - Os romanos conquistam a Bretanha (43 a.D.); em seguida, o vale sul do Reno, a Floresta Negra, o baixo rio Meno e regiões ao norte da atual Frankfurt.
98-117 d.C. - O imperador Trajano manda construir as primeiras instalações do Limes na Bretanha, Germânia e na Dácia conquistada (atual Romênia).
117-138 d.C. - Adriano determina a construção da Muralha de Adriano, na Bretanha, bem como da paliçada de Limes na Germânia e na parte norte das terras no sopé dos Alpes.
161-180 d.C. - Germânicos rompem o Limes do Danúbio. Marco Aurélio conduz a luta contra os marcomanos (principalmente no Danúbio médio).
200 a.D. - Instalação de fossos e valas na Germânia Superior, bem como da muralha Limes na Récia.
213-238 a.D. - Os imperadores Caracala e Maximino Trácio guerreiam com germânicos além do Limes.
260-275 d.C. - Os romanos recuam o Limes do Reno e do Danúbio, desistem da Dácia (que pertence hoje em sua maior parte à Romênia). Germânicos avançam até a Gália e a Itália do Norte.
Todo o século 4 d. C. - Batalhas com francos, godos e sarmatas.
400-425 d.C. - O Limes Reno-Danúbio vem abaixo; os romanos também se retiram da Bretanha. Em 410, os visigodos alcançam Roma e saqueiam a cidade.
Romanos armados, dácios mortos: os relevos do Tropaeum Traiani, na atual Romênia, festejam a vitória do Imperium sobre os habitantes da Dácia
Marco Aurélio (161-180), o filósofo no trono de imperador, autor das famosas "Meditações", recusou o pedido. Roma via-se incapaz de integrar povos inteiros - mesmo que essa decisão arriscasse provocar uma guerra. Diante dessa notícia, 6 mil guerreiros langobardos atravessaram o Danúbio e saquearam as cidades limítrofes romanas. As tropas estacionadas no Limes mal bastaram para combater e repelir os invasores.
Os langobardos foram, contudo, apenas a primeira onda. Em uma frente extensa ao longo da fronteira do Danúbio, do curso superior do rio até o delta, também tribos até ali consideradas pacíficas - e provavelmente aliadas entre si - atacaram o Império Romano. A crônica imperial da famosa "História Augusta" contém listas inteiras com os seus nomes: marcomanos e quados, hermúnduros e vândalos, suevos e sármatas, roxolanos e costobocos.
Fica evidente que o Limes não era de modo algum um bastião militar, mas uma simples zona de controle para tempos de paz - e, nessa condição, possível de ser fiscalizada por policiais e publicanos.
Uma vez em solo do Império, os invasores se beneficiaram da própria infraestrutura romana. Por estradas bem construídas eles se moviam com tanta rapidez, que marcomanos e quados não tiveram dificuldade em alcançar o Mar Adriático.
No leste, os cavaleiros dos costobocos ameaçavam a desprotegida Atenas. E em todo lugar esses bárbaros encontravam alimento, nada lhes atravancava a ofensiva, a não ser os bens recolhidos nos saques, que se acumulavam de forma crescente em suas carroças, e as dezenas de milhares de prisioneiros sendo levados por eles para o norte - artesãos e engenheiros romanos que agora iam cooperar com a ambição dos germânicos pelo desenvolvimento. A necessidade de reagir era tamanha que Marco Aurélio - tudo, menos um general - deslocou-se pessoalmente para a frente de batalha.
Antes de tomar essa decisão, ele, por sete dias, havia servido os deuses no Capitólio. Marco Aurélio oferecera alimentos requintados diante de suas estátuas, enquanto os cantos de súplica dos sacerdotes rogavam auxílio às divindades celestes. Esse ritual era conhecido apenas através de crônicas antigas; fora celebrado pela última vez 400 anos antes, quando o conquistador Aníbal viu-se diante dos portais de Roma.
Controlar o Danúbio. Era uma ideia dos celtas antes mesmo dos romanos. Pesquisadores reconstruíram partes de uma fortificação na montanha Braunsberg, em território austríaco.
Agora o Imperador romano reuniu às pressas quem pudesse empunhar uma arma. Escravos eram libertos, desde que se apresentassem para o serviço militar; gladiadores eram recrutados, bem como ladrões condenados e os policiais das cidades. Para coroar esse ambiente de desgraça, grassava no Império a peste. As cifras de perdas das legiões subiram de 3% a 5% ao ano, para mais de 20%.
Foi quase um milagre que, ao final, o Imperium tenha vencido. Após um largo período - mais de dez anos -, Marco Aurélio conseguiu empurrar o inimigo de volta às terras ao norte do Danúbio. Mais importante: ele levou a guerra novamente para dentro da Germânia.
Exauridas, no ano de 175 essas tribos concordaram com um acordo de paz; todavia, o tratado proibia aos derrotados aproximar-se do Danúbio em uma distância inferior a 13 quilômetros .
Em todo o episódio, o que ficou evidentemente visível foi a fraqueza do Império. E isso representou a semente de sua decadência. Nas montanhas do Taunus, hordas germânicas incendiaram a vicus (colônia) de Saalburg, em 211. A fortificação perto da torre de vigia de Primius Auso conseguiu se manter por quatro décadas. Depois disso os romanos a abandonaram. Em alguns pontos da Grã-Bretanha, os legionários conseguiram manter a Muralha de Adriano até o começo do século 5 depois de Cristo.
Mas há muito tempo estava já claro: a força de integração do Imperium era limitada; seu modelo econômico não podia mais ser exportado. A tarefa de manter riqueza e paz diante de um mundo de pobreza e violência que avançava vindo do Norte, devorou mais recursos do que até mesmo Roma poderia obter.
Homens cada vez mais jovens foram recrutados; e o valor dos impostos bélicos eram cada vez mais altos. No momento em que os moradores das províncias passaram a temer mais os coletores de impostos imperiais e os funcionários das taxas do que os bárbaros selvagens, o Imperium começou a deixar de existir.
O autor de GEO Ralf-Peter Märtin (foto à esquerda, de chapéu) foi ao fundo da história da Muralha de Adriano, juntamente com o arqueólogo britânico David J. Breeze. Já o fotógrafo Heiner Müller-Elsner procurava uma perspectiva totalmente diferente: com um veículo aéreo ele pretendia elevar-se acima da muralha - a primeira tentativa terminou em posição oblíqua por causa do vento. As reconstruções gráficas de Saalburg foram feitas por Tim Wehrmann.
Dica - Atari relança site com jogos clássicos de graça
Imagem: Reprodução/Atari.com
A saudosa Atari relançou seu website com uma nova estratégia para entrar no século XXI. A página traz uma loja virtual de jogos e versões gratuitas de alguns dos arcades mais clássicos da empresa de videogames.
No site, é possível jogar os títulos Asteroids, Adventure, Battlezone, Crystal Castles, Lunar Lander e Yars Revenge. Existe ainda um ranking mundial de pontução dos jogos e modo para mais de um jogador.
Muitos foram os nomes dados ao lugar, como “Cemitério do Atlântico”, “Mar do Demônio”, “Mar dos navios perdidos” ou ainda “Mar das Teiticeiras”.
O Triângulo das Bermudas ou Triângulo do Diabo é uma região do oceano Atlântico onde um grande número de aviões e navios desapareceram em condições misteriosas. As vértices deste triângulo costuma ser delimitado pela Ilha de Bermudas, pela cidade de San Juan em Porto Rico e por Miami, na Flórida, mas suas fronteiras são elásticas, podendo chegar a formar um losango para comportar todos os desaparecimentos da redondeza.
Para explicar tal fenômeno diversas teorias foram criadas, tais como: portais para outras dimensões, campos de energia provocados por antigos cristais do continente perdido de Atlântida abandonados no fundo do oceano, anomalias temporais, magnéticas ou gravitacionais, buracos negros, abduções alienígenas e monstros marinhos, já para os cientistas são frutos de súbitas erupções gasosas submarinas e ondas gigantes.
A primeira descrição que se teve sobre o Triângulo das Bermudas foi de Cristóvão Colombo, quando ía em direção à América, que relatou ter visto uma bola de fogo no céu, explicada hoje como um meteorito, também descreveu sua passagem pelo Mar dos Sargaços, que é uma parte do Oceano coberta de Sargaços (uma espécie de alga), sendo consideradas a verdadeira razão pelo desaparecimento de navios, pois suas longas calmarias aprisionavam os navios à vela, levando homens a abandonar seus navios ou morrer neles.
Charles Berlitz publicou em 1974, o livro “Triângulo das Bermudas”, sucesso de vendas, no qual abordava temas sobrenaturais dos desaparecimentos, citando fatos como: o mistério do Vôo 19, que era o nome de um grupo de cinco caças-bombardeiros TBM Avenger da Marinha americana que decolou no dia 15 de dezembro de 1945, de Fort Lauderdale, que após um treinamento bem sucedido, desapareceu sem deixar vestígios, logo após desapareceu também um dos hidroaviões de resgate enviado, desencadeando uma das maiores operações de resgate da história, com mais de 240 aviões, navios da Marinha, barcos da guarda costeira, iates particulares e até submarinos, mas nada foi encontrado.
Em 29 de janeiro de 1948, um antigo bombardeiro inglês, o Star Tiger, também desapareceu no local, com 25 passageiros à bordo, a última notícia que se teve foi uma comunicação do piloto com a torre relatando que chegaria ao destino na hora prevista, sem relatar qualquer problema. Estranhamente, quase um ano depois, outro avião igual, o Star Ariel, também desapareceu sem deixar vestígios. O avião comercial DC-3, que fazia trajeto San Juan e Miami, também desapareceu e seus passageiros nunca foram encontrados.
Muitos navios também desapareceram no local, os que não desapareceram foram encontrados à deriva sem tripulação, a exemplo temos: o USS Cyclops que nunca mais foi visto após zarpar do posto das Bermudas; o S.S. Marine Sulphur Queen, um navio tanque carregado de enxofre que desapareceu após seu último contato, em 3 de fevereiro de 1963;o navio brasileiro São Paulo, destinado ao ferro-velho, que estava sendo rebocado por dois navios, mas um destes, temendo uma tempestade, soltou o cabo durante a noite, na manhã seguinte o navio e sua tripulação de 8 pessoas havia desaparecido sem deixar vestígios; Mary Celeste, um navio português encontrado à deriva em 1872, com carregamento de álcool, víveres e objetos pessoais intocáveis, mas neste caso o navio foi encontrado à milhares de quilômetros dali, na Costa de Portugal.
Muitas teorias foram levantadas para explicar os fatos, como por exemplo no Vôo 19, no qual o piloto supostamente teria se perdido, já que naquela época não havia GPS, e teria feito outra rota, a frequência do rádio teria sido mudada, aparecendo no radar em Cuba, onde muitas pessoas teriam afirmado ter visto uma explosão no céu na mesma posição em que se encontrava no radar, onde destroços dos aviões e vestígios de óleo foram encontrados na água, a explicação para não terem encontrado corpos seria porque a região é infestada de tubarões. Já o DC 3 teria relatado problemas com suas baterias, mas o piloto resolveu recarregá-las durante o vôo, no qual houve uma pane elétrica, explicando o fato de não conseguir se comunicar com a torre.
A guarda costeira americana tem sempre a mesma resposta para todos os desaparecimentos do Triângulo das Bermudas:
“A guarda Costeira não se impressiona com causas sobrenaturais para acidentes no mar. Faz parte da sua experiência reconhecer que as forças combinadas da natureza com a imprevisibilidade do homem superam a mais imaginativa ficção científica muitas vezes por ano”.
De época em época novas teorias e fatos “supostamente” inexplicáveis surgem, ou são gradativamente aumentados, muitos ufólogos preferem até não tocar no assunto por achá-lo antiquado, mas alguns mistérios permanecem inexplicáveis, seja pela crença dos povos ou por falta de base científica para serem desvendados.
Foram 16 longos anos de espera e ansiedade; mas, o Ceará Sporting está entre os 20 maiores times do Brasil
A vitória por 2x1 sobre a Ponte Preta, na tarde de ontem, em Campinas, selou o retorno do do Alvinegro à elite do futebol pentacampeão mundial com uma rodada de antecedência. A pequena legião de alvinegros que compareceu ao Estádio Moisés Lucarelli não se conteve de tanta emoção.
O jogo contra a Macaca não foi dos mais brilhantes. Nem mesmo a chuva, porém, conseguiu arrefecer os ânimos dos atletas do Vovô, que superaram as más condições climáticas e bateram o adversário na sua casa. A festa teve início aos 10 minutos de jogo. O capitão Geraldo cruzou a bola da direita. O zagueiro Renan chutou contra o seu próprio gol e abriu o placar a favor dos cearenses. Aos 42, veio o susto. Após escanteio, Lopes espalmou a bola e Fabiano Gadelha pegou de primeira de fora da área e empatou. Aos 31 do tempo final, Jorge Henrique cobrou escanteio e Fabrício de cabeça fez o gol do acesso.
Depois disso, foi só administrar o resultado e soltar a emoção pelo retorno do Alvinegro à Série A do Campeonato Brasileiro. O volante João Marcos caiu no chão ajoelhado. O capitão Geraldo chorou por mais de quinze minutos.
"É muita emoção. Fomos discriminados no início da competição, quando chegamos à lanterna. Taxados de velhos e refugo. E agora levamos a classificação para uma nação inteira de torcedores apaixonados. Tenho mesmo é que chorar", desabafou o camisa 10 do Vozão, apontado pelo técnico do Vasco, Dorival Júnior, como um dos três melhores jogadores da competição.
Aeroporto O comandante do acesso, Paulo César Gusmão, conclamou toda a torcida a comparecer ao Aeroporto Internacional Pinto Martins a partir das 14 horas de hoje para "esperar esses guerreiros e heróis, que eles merecem".
O atacante Sérgio Alves, 40 anos (incompletos), 17 dos quais no Ceará, entre idas e vindas, disse que "a graça de Deus fez com que ele estivesse nesse momento no clube".
O presidente da Executiva, Evandro Leitão, comemorou ao lado do presidente do Conselho, Castelo Camurça. Aos prantos, Evandro disse que a "união do grupo" levou o Vozão ao acesso. O dirigente frisou que "era hora de a torcida comemorar, mas sem excessos".
O momento mais marcante da épica conquista do Alvinegro em Campinas foi a oração realizada no meio do campo de jogo do estádio Moisés Lucarelli. Atletas, comissão técnica, dirigentes, funcionários e alguns torcedores, de joelhos sobre a bandeira do clube e da Cearamor, rezaram um emocionante pai nosso, puxado pelo meia atacante Reinaldo.
Ficha técnica
PONTE PRETA 1 Gilson; Dedé, Dezinho, Renan e Vicente; Deda, Pirão, Tinga (Leandrinho/Intervalo) e Fabiano Gadelha (Jean Carioca, 40/2ºT); Evando (Lins, 21/2ºT) e Reis. Técnico: Wanderley Paiva.
CEARÁ 2 Lopes; Arlindo Maracanã, Fabrício, Erivélton e Fábio Vidal (Jorge Henrique,21/2ºT); Heleno, João Marcos, Michel, Geraldo (Reinaldo, 15/2ºT); Preto (Wellington Amorim, 32/2ºT) e Mota. Técnico: PC Gusmão.
Competição: Série B do Campeonato Brasileiro. Estádio: Moisés Lucarelli, em Campinas (SP). Data: 21 de novembro de 2009. Árbitro: Péricles Bassols Cortez. Assistentes: Rodrigo Pereira Joia e Wendell de Paiva Gouveia (trio do Rio de Janeiro). Renda: R$ 13.869,00. Público: 1.188 pagantes. Gols: Renan (contra), 10/1ºT) e Fabrício, 31/2ºT) Ceará; Fabiano Gadelha, 42/1ºT) Ponte Preta. Cartões amarelos: Dedé, Dezinho, Vicente, Deda, Pirão, Erivélton e Mota.
Será que ele deu sorte? Acho que sim! Ninguém segura o homem.kkkkkkkkkkkkkkkk
Uma recepção indescritível teve ontem a delegação do Ceará após regressar de São Paulo, onde conseguiu o acesso
Aeroporto Internacional Pinto Martins recebeu a maior manifestação popular de toda a sua história Foto: Kid Júnior
A torcida alvinegra superou todas as manifestações de amor e apreço ao seu time nos 95 anos de existência do Vozão. Um contingente humano e de carros que impressionou não só quem mora nas proximidades do Aeroporto Internacional Pinto Martins, mas como à Polícia Militar (PM) e os funcionários da Infraero tomou conta ds vias que dão acesso ao local, nos dois sentidos, entre os bairros Castelão e do Montese.
Para se ter uma ideia da grandiosidade da festa em comemoração à volta do time à elite do Futebol Nacional após 16 anos, o trio elétrico e o carro dos Bombeiros que transportaram os heróis da conquista demorou 55 minutos para fazer o trajeto de dentro do aeroporto até o viaduto que fica fora dele, cerca de apenas 50 metros de distância.
Euforia de primeira: torcida alvinegra lota as ruas de Fortaleza para recepcionar osjogadores,que conquistaramo acesso Foto: Kiko Silva
Voo perdido A inesperada avalanche humana fez com que muitos turistas que se dirigiam ao aeroporto para viajar, estupefatos, deixassem os táxis pelo caminho e se encaminhassem a pé para não perder o embarque. "Sou representante comercial e viajo por esse Brasil afora há mais de 15 anos. Nunca tinha visto isso em lugar nenhum. Quando entramos na avenida, pensei que se tratava de alguma catástrofe. Ainda bem que é apenas uma comemoração", afirma o paulista Evaristo Moreira de Lima.
Torcedor do Vovô com a edição especial sobre o acesso do Ceará no caderno Jogada, publicada ontem Foto: Kid Júnior
Cego e apaixonado Até quem não enxerga resolveu recepcionar a delegação do Vovô. É o caso do deficiente físico Rogério de Oliveira Teixeira, 42 anos, 22 dos quais sem ver. "Sou deficiente. Não posso ver. Mas, imagino o que está havendo. É algo que me deixa emocionado, pois há muito tempo não sentia uma alegria tão forte como essa dada pelo Vozão", revelou.
O Diário do Nordeste acompanhou com exclusividade o retorno dos jogadores do Alvinegro de São Paulo Foto: Kiko Silva
Do aeroporto até a sede do Ceará, num trajeto normal, se gasta 10 minutos. Por causa da multidão e do enorme contingente de veículos, motos e bicicletas que acompanharam o comboio da vitória, a carreata só chegou ao Vovozão três horas depois. O percurso teve que ser desviado do Montese. Seguiu pela Expedicionários e contornou o bairro do Mondubim, até parar em Porangabuçu.
Reforço na estrutura
Pela estrutura que vem sendo montada pelo Ceará, 2010 deve ser um dos melhores anos de toda a sua história
Para voltar à elite do futebol nacional após 16 anos e permanecer nela, o Ceará Sporting foi bem mais além do que formar um grande elenco e contratar uma comissão técnica de destaque nacional. Desde que tomou posse no clube, há um ano e meio, o presidente Evandro Leitão e sua diretoria iniciaram um trabalho de recuperação completa da estrutura do clube.
Uma de suas primeiras metas foi a reformulação dos vestiários do estádio Vovozão. O que é utilizado pelo time principal foi praticamente duplicado de tamanho. Ganhou espaços mais generosos para os lavatórios e banheiros individuais. Os atletas possuem hoje armários personalizados, com suas fotos.
Uma piscina para atividades físicas após os jogos foi montada na semana passada na sede do Alvinegro Foto: Kiko Silva
Além da reforma nos dois vestiários, o Ceará fez também uma caixa de areia onde são realizadas as atividades físicas que anteriormente eram executadas na praia. O clube também possui hoje uma moderna academia, fruto também da ajuda da Campanha Ceara Unido.
Quem chega a Porangabuçu, pelo lado da Avenida José Bastos, fica surpreso com o que ali já foi construído: salas para os departamentos médico, de fisioterapia, de odontologia e de fisiologia. Nas últimas semanas, uma piscina foi implantada no terreno ao lado da moderna sala de imprensa, também inaugurada este ano.
As mudanças não param por aí. Os alojamentos Antônio Gois e a concentração onde ficavam os juvenis estão sendo reformulados e devem ser entregues até o final do ano. Com isso, o elenco de 2010 deverá trabalhar em tempo integral, pois os atletas farão todas as refeições no clube após chegarem de manhã cedo, almoçarão e ainda farão um lanche antes de ir para casa.
A ideia é propiciar aos jogadores uma alimentação balanceada, que ajudará no rendimento dentro de campo. O Ceará inaugura ainda até o final de 2009 seu memorial, onde o torcedor que for visitar o clube terá acesso a história do Alvinegro.
O Departamento Médico do Vozão é hoje um capítulo à parte. É um dos mais completos do País em se tratando de clube de futebol. É dirigido pelo médico Paulo Vasconcelos, que contribuiu em muito para a sua completa reestruturação. O chefe é o médico Marcos Girão. Três outros profissionais de medicina compõem o quadro principal, que conta com fisiologista.
Os médicos Joaquim Garcia (e) e Marcos Girão (c) integram o Departamento Médico, assim como o fisiologista Henrique Martins
Pacajus A gestão Evandro Leitão não esqueceu o futuro. Numa parceria com a prefeitura local, a Campanha Ceará Unido está edificando em Pacajus o seu Centro de Treinamento, o primeiro que visa não só à formação de novos atletas como também trabalhar na recuperação de pessoas com necessidades especiais. Para 2010, 22 jogadores já têm contrato assegurado.
Planejamento Elenco para 2010
Jogador DURAÇÃO
Boiadeiro 30/11/11
Arlindo 30/11/10
Andrezinho 30/11/11
Fabrício 30/11/10
Anderson 30/11/10
Renato 30/06/14
Ernandes 30/11/10
Jardel 30/11/10
Heleno 30/11/10
João Marcos 30/11/10
Michel 30/11/10
Luisinho 30/11/14
Marcelo Bras 31/05/10
Jorge Henrique 30/11/10
Preto 30/11/11
W. Amorim 30/11/10
Rômulo 30/11/11
Misael 30/11/11
T. Fernandes 30/11/10
Wescley 30/11/10
Elson 30/12/11
Rone Dias 30/11/12
PC Gusmão, o mago do acesso
Ele foi trazido para o Ceará com a missão tida por muitos como quase impossível: levar o Vozão à 1ª Divisão. Conseguiu
A vinda de Paulo César Gusmão para o Alvinegro é apontada como uma das principais medidas responsáveis pelo acesso do clube à elite do futebol nacional. O comandante do Vovô começou a dirigir o time de Porangabuçu no dia 26 de maio, no empate por 2x2 contra o Figueirense, no Castelão, pela quarta rodada da Série B. Nos jogos seguintes, fora de casa, mais dois resultados negativos: derrota para o Vila Nova (1x0) e empate com o Paraná (3x3), o que lhe valeu a lanterna da competição.
Sem mexida Nessa ocasião, impressionou a insistência de PC em manter o seu time base. Ele justificou dizendo que, apesar dos reveses, a equipe vinha se apresentando bem e não havia motivo para a mudança. Contrariando o pensamento geral, acabou acertando em cheio.
Invencibilidade A partir de então- contando ainda com o empate por 3x3 frente ao Paraná, fora de casa_ foram 11 jogos seguidos sem perder, com oito vitórias e apenas três empates. Essa sequencia impressionante, conseguida apenas pelo Guarani de Campinas, levou o Vozão da lanterna para dentro do G4 (3ª colocação) já na 16ª rodada da competição.
Desse instante em diante, o seu time jamais deixou de frequentar o grupo de acesso, até sacramentar ontem a subida para a primeira divisão após a "Batalha de Campinas". "Foi um trabalho de persistência. Não tínhamos motivo para mudar a equipe no começo. O time foi se ajustando e conseguimos o nosso intento de subir", aponta PC.
Apoio total O principal responsável pelo acesso do Vovô diz que o engajamento do presidente Evandro Leitão e do conselheiro André Figueiredo foram fundamentais. "Eles nos deram todas as condições possíveis. Não mediram esforço para dotar o clube de um estrutura mínima para propiciar o que há de melhor aos nossos jogadores. Isso fez a diferença a nosso favor", avalia Paulo César Gusmão.
Apoio da galera Outro aspecto ressaltado pelo treinador alvinegro foi a adesão da torcida ao seu trabalho. "Essa galera é impressionante. Em nenhum instante, ela deixou de acreditar. Nem quando estávamos no último lugar perdemos o seu apoio. Já disse em outras ocasiões que dirigi grandes times, mas nenhum deles com uma torcida tão vibrante e apaixonada como a do Ceará. Foi, sem dúvida alguma, um grande trunfo que tivemos ao longo de toda essa vitoriosa campanha".
Família Para realizar um grande trabalho em Porangabuçu, Paulo César Gusmão teve o apoio da esposa Ana Beatriz, que reside com ele aqui em Fortaleza, e das filhas Paula e Betriz que acompanham do Rio de Janeiro, através da internet e da imprensa de uma forma geral, a sua caminhada à frente do Vozão. "Elas leem tudo a respeito do futebol cearense. Bem cedinho, me ligaram no dia em que o Diário do Nordeste publicou uma entrevista comigo. Soube através delas e só depois fui conferir".
Futuro Após a conquista do acesso, é hora de retomar as conversações com a diretoria do Alvinegro com vistas à permanência por mais uma temporada em Porangabuçu. "É aquilo que vinha dizendo. Com a presença do Ceará no Brasileirão em 2010, podemos fazer um planejamento e traçar metas. Agora dá para conversar sabendo o que teremos pela frente. Antes disso, era complicado, pois a coisa podia não ter tido o desfecho esperado. Tive uma experiência negativa nesse sentido no Cruzeiro e não foi legal. Acabamos não levando adiante o trabalho. Hoje, a prioridade é ficar aqui. Vai depender das conversações que terei com o Evandro e com o André Figueiredo", concluiu PC Gusmão.
Quem é PC Gusmão
Ficha Paulo César Lopes de Gusmão é casado e nasceu no Rio de Janeiro, no dia 19 de maio de 1962.
Ex-goleiro Após encerrar a carreira como camisa 1, PC passou a ser preparador de goleiros
Auxiliar O técnico Oswaldo de Oliveira foi quem o convidou para ser seu auxiliar
Técnico Foi a partir daí que PC assumiu o Vasco da Gama de forma interina até ser efetivado
Clubes Treinou equipes como Cruzeiro, Palmeiras, Flamengo, Botafogo e Fluminense
Torcida que sempre esteve por perto, mesmo quando o time ia mal, vai poder mostrar toda sua força na elite em 2010
Além de ser o ano da redenção do alvinegro dentro de campo, 2009 vai marcar também a consolidação de uma verdade que vem se pronunciando já há muito tempo: a fidelidade irrestrita da torcida alvinegra.
Para se ter uma ideia, dos dez maiores públicos da Série B na presente temporada (até a 36ª rodada), quatro foram do time de Porangabuçu. Desempenho similar ao do campeão Vasco e superior ao do Bahia, sempre alardeado como um dos clubes de maior sucesso, em termos de público, do futebol brasileiro.
O detalhe que certamente ajudou o time cearense para que ficasse à frente dos baianos foi a campanha do time. Enquanto o tricolor da Boa Terra amargou o risco de rebaixamento durante boa parte do Brasileiro, o Vozão realizou uma campanha que desde 2002 não empolgava tanto a torcida. A média de público do Ceará na competição nacional, que vinha diminuindo nos últimos três anos - em 2006, foi de 15.725; em 2007, 13.588 e no ano passado foi de 12.271 -, fruto talvez das más campanhas realizadas - chegou a 21.200 torcedores por partida em casa no ano de 2009, levando o clube à segunda colocação, atrás apenas do Vasco (25.685). Um reflexo irrefutável de que o clube precisa colaborar para o entusiasmo de seus torcedores, por mais apaixonados que sejam.
"Faz 16 anos que não disputamos a Primeira Divisão. Já estava mais do que na hora. Mas sempre fizemos (a torcida) nossa parte. Seja nos jogos contra times pequenos ou grandes, sempre procuramos incentivar para que todos fossem ao estádio", defende o presidente da Cearamor, Jeysivan Santos.
No entanto, Jey, como é chamado, reconhece que a massa alvinegra poderia ter feito ainda mais. "Sabemos que a torcida ficou meio que até devendo nesse ano em alguns jogos", ressalta. Como justificativa para a dificuldade em lotar o Castelão em mais jogos da Série B, Jey aponta o recorrente problema da alta no preço dos ingressos, o que acaba afastando o torcedor mais humilde do estádio.
Para o ano que vem, porém, Jey garante: "esperamos que triplique a torcida nas arquibancadas nos jogos do Ceará. Vai ser muito bom depois de tanto sofrimento", afirma.
Opinião Classe operária vai... à elite
Diretoria séria, mercadores de atletas a distância, união do grupo de jogadores e, acima de tudo, uma torcida como poucas, foram armas que levaram o Ceará Sporting de volta à 1ª Divisão Nacional. Antes, havia um pensar menor: "subir pra que, para cair logo depois ?" Ora, o torcedor alvinegro, apesar da baixa faixa salarial, conhece a própria força e por isso pensa grande. Entende que a presença nos jogos basta para bancar o clube. Agora, que o sonho em preto-e-branco virou realidade, passemos à outra etapa. Fortalecer as escolinhas, formar craques, que crescerão na luta pelo objetivo comum: fazer o Ceará maior. Vamos em busca não apenas de "se manter" ou "não cair". Afinal, é preciso continuar sonhando...
Neno Cavalcante Jornalista e redator da Coluna É...
Qual o real valor da volta do time à 1ª Divisão ?
"Não tenho a menor dúvida de que, com o Estado tendo a oportunidade de receber uma Copa do Mundo, ter um representante na elite do futebol brasileiro é fantástico"
Ferruccio Feitosa Secretário da Sesporte
"O triunfo do Ceará orgulha os cearenses. Foi fundamental o coração do torcedor, que pulsou na arquibancada e empurrou o Vovô para a Série A. Estamos de parabéns"
Evaldo Lima Secretário da Secel
"O retorno do Ceará Sporting à elite nacional só vem engrandecer o futebol cearense, a exemplo do que fez o Fortaleza recentemente nos anos de 2002 e 2004"
Mauro Carmélio Vice-presidente da FCF
Festa em preto e branco
Torcedores soltaram o grito de Vozão na Primeira Divisão, após a marcação do gol de Fabrício, que deu a vitória ao Ceará diante da Ponte Preta, no Estádio Moisés Lucarelli Foto: Alex Costa
A alegria contida ao longo da trajetória dos 16 anos fora da elite foi extravasada, ontem, na festa alvinegra na cidade
Uma cidade em preto e branco foi o que se viu, ontem, em vários bairros de Fortaleza. Na Aerolândia, a grande massa alvinegra lotou bares e restaurantes numa festa jamais vista. Velhos e novos, pretos, brancos e mestiços comemoravam num só grito. ´´O Vozão é de primeira´´. No ´´Canto do Baião, na Rua Capitão Uruguai, mais de 600 alvinegros assistiram ao jogo do Ceará com a Ponte Preta, em Campinas, no confronto que selou a subida do Vozão para a elite do futebol brasileiro.
Mesmo antes do jogo ter início, os torcedores ensaiavam o primeiro grito de guerra alvinegro. ´´Oh! Oh! Dá-lhe Vovô!
O funcionário público Carlos Almeida (56) prognosticava. ´´Vamos ganhar, subir e de sobra comemorar a queda do rival´´, disse. No clima familiar, mas de euforia, a torcida alvinegra soltou o grito de comemoração logo aos 10 minutos, no gol contra da Ponte, que colocava o C eará na frente. O entusiasmo dos alvinegros só diminuiu aos 40 minutos, quando a Macaca chegou ao empate.
A jovem alvinegra festeja o feito de seu time que agora vai para a Série A
Vinícios Oliveira (35),Engenheiro Civíl, não desanimava. O Ceará vai para a elite, não tem quem segure. Hoje é dia do Vozão, pode anotar aí´´, afirmou. A torcida acompanhava também pelo radinho, os resultados dos demais jogos da Série B , principalmente, os que lhe interessavam diretamente, e quando os gols eram anunciados, viravam motivos de gritos comemorativos.
A empolgação dos torcedores aumentava e quando aos 31 minutos, Fabrício fez o segundo tento, quase que a estrutura do Canto do Baião foi à baixo. Uma explosão de gritos, buzinas, apitos e acenos com bandeiras do Mais Querido tremulando. Um espetáculo. Sacramentada a vitória por 2x1 e com a vaga conseguida, a comemoração continuou.
Paulo de Tarso resolveu se vestir de Papai Noel para dar a vaga de presente à torcida
"A festa não tem hora para acabar", disse proprietário do restaurante, Paulo de Tarso, que vestido de papai noel alvinegro não chegou para quem queria tirar foto com ele. O assédio foi grande.
A subida do Vozão também foi comemorada pelo segmento jovem. ´´Nunca tive o prazer de ver meu time no Brasileirão com os grandes clubes, mas agora vou´´, disse Karol Carneiro (14), estudante.
Herois e guerreiros do acesso
A conquista de uma vaga na 1ª Divisão Nacional sempre é regada de alguns destaques. E no Ceará não foi diferente. Por outro lado, como o próprio técnico PC Gusmão já declarou, "o nosso time é composto por um grupo, forte e homogêneo. Sem vaidade. É por isso que chegamos, aonde chegamos". Dessa feita, nomes como o do goleiro Ranier, dos zagueiros Wescley, Elson , Renato e o meia Rone Dias não atuaram na Série B do Brasileiro, mas estão no grupo alvinegro e merecem a lembrança de que ao lado de todos os atletas do Vovô deixaram seu nome na história do clube.
O Brasil é um arremedo de democracia. Basta que as vozes se ergam para criticar aqueles que detêm o poder para a mão de ferro do Judiciário a serviço do mal desça como um raio sobre os pobres mortais que ousaram desafiar os poderosos, os corruptos e os corruptores.
Depois de tantos casos relatados aqui no Visão Panorâmica, uma medida alvissareira do Supremo Tribunal Federal parecia ter dado fim à censura aos veículos de comunicação e, particularmente aos blogs, através da possibilidade de recorrer diretamente ao STF para reverter decisões pró-censura que são claramente inconstitucionais.
Em sua inocência, este blog acreditou que essa medida seria suficiente para que juízes a serviço da corrupção e de seus padrinhos políticos parassem de proferir sentenças ordenando a censura aos blogs políticos e provocasse o fim da litigância de má fé que se tornou a principal arma dos corruptos denunciados pelos blogs.
Na realidade, essa forma de atuação é muito simples e eficaz. Pois basta processar um blog (que geralmente é mantido por pessoas sem recursos e sem apoio de grandes empresas) para provocar o seu silêncio, a sua rendição ou o seu fechamento. Afinal de contas, pela legislação brasileira se eu for processado por um corrupto de um estado distante, terei que me deslocar até lá ou corro o risco de ser condenado à revelia. Da mesma forma, se um juiz a serviço do corrupto me condenar a indenizações e a ser censurado, certamente poderei reverter o caso nas instâncias superiores (se não tiver cometido atos ilícitos no processo de denúncia). No entanto, esses recursos são onerosos e, em muitos casos, deverão acabar no STF a um custo elevadíssimo. Novamente, o desamparo econômico (que não falta ao corrupto) favorece ao lodo mau dessa equação e, na maioria das vezes, o blog morre ou aceita a censura pela simples impossibilidade de defender-se.
E aconteceu de novo. No Mato Grosso, um juiz “zeloso” e “atento” aos desígnios da Constituição Federal, determinou a censura aos blogs de todo o estado e ordenou que nenhum deles emitisse opiniões ou veiculasse notícias sobre o deputado estadual José Riva (PP-MT). O honrado deputado detém o invejado título de deputado mais processado do estado. Sendo contemplado com 92 ações pelos mais diversos crimes que vão do peculato (popularmente conhecido como roubo cometido por funcionário público), improbidade administrativa e formação de quadrilha. O mais surpreendente é que apenas duas ações criminais foram recebidas pela justiça do Mato Grosso que, mesmo assim, não andam graças ao Foro Privilegiado.
Os blogs Prosa e Política, da economista Adriana Vandoni, e Página do E, de Enock Cavalcanti foram condenados, sob pena de multa de R$ 1 mil, a retirar todas as menções ao deputado José Riva e a suspender a veiculação de notícias sobre os processos ou a publicação de opiniões sobre eles ou sobre o deputado.
Como todo exemplo de lisura, o deputado se diz a favor da liberdade de expressão e de imprensa (desde que não se fale dele e de seus processos), afinal de contas ele se sente com seus direitos violados como cidadão e como ser humano.
Resta saber a que direitos ele se refere…
A verdade, infelizmente, é uma só: Juízes “camaradas” ou comprometidos com algo diferente do que a lei diz continuam proferindo sentenças contrárias a Constituição Federal sem qualquer intimidação do conselho Nacional de Justiça, da OAB e das entidades da Sociedade Civil. Compreender que a litigância de má fé e o uso do Judiciário para barrar o acesso às informações capazes de expor corruptos e bandidos que se refugiem em um mandato eletivo para praticar crimes e mergulhar na impunidade proporcionada pelo Foro Privilegiado é, no mínimo, uma vergonha e uma imoralidade para uma instituição como o Judiciário Brasileiro.
Num país de faz de conta, onde as leis são meramente ilustrativas e podem ser distorcidas e obliteradas, segundo os interesses dos poderosos e dos criminosos; o povo está desamparado e o cidadão está à mercê do mal e da injustiça.
Como cidadão e como blogueiro, cabe a indignação e o protesto contra esse vandalismo legal e essa clara e descarada censura, disfarçada de defesa da suposta “honra e dos direitos” de um cidadão acusado de vários crimes. Como se, revelar a verdade dos fatos (ele realmente responde aos processos), fosse algo ofensivo ou capaz de atingir “os direitos humanos” de alguém.
Como sempre, a última palavra deve ser do eleitor do Mato Grosso que deve escolher melhor os seus representantes e expurgar da vida pública as figuras nefastas que desejam apenas enriquecer a custa do sofrimento do povo e do desamparo de uma nação inteira.